A risada irrompeu de novo.
— Vá agora — disse o Senhor das Moscas. — Volte para junto dos outros e vamos esquecer tudo."
(O Senhor das Moscas - William Golding)
O livro "O Senhor das Moscas" conta a história de um grupo de meninos que após um acidente aéreo ficam isolados em uma ilha, sem a supervisão de adultos. O livro traz uma reflexão sobre o quanto as noções que temos sobre comportamento civilizado são naturais, o quanto são culturais.
No início os meninos, com idades de 6 a 12 anos, entre eles Ralph, Piggy, Jack e Simon, tentam manter uma certa organização, se lembrando das regras a que estavam acostumados no mundo dos adultos. Um exemplo disso é o uso de uma concha para organizar as reuniões do grupo: só o menino com a concha teria o direito de falar. De modo democrático, eles elegem como líder Ralph. No entanto, pouco a pouco, eles vão esquecendo as regras de convivência e passam a se comportar como crianças sem limites, num simulacro do que seria o estado de natureza teorizado por filósofos como Hobbes, Rousseau e Locke. Nesse estado da natureza, os meninos deixam de lado as regras de comportamento civilizado e passam a viver segundo a lei imposta pelo mais forte.
O conflito que se estabelece está em acordo com as ideias de Hobbes sobre o estado de natureza. Segundo ele, no estado de natureza, os indivíduos vivem isolados e em luta permanente, a vida não tem garantias, há um medo da morte violenta, a propriedade não tem reconhecimento e a única lei é a força do mais forte [1]. No livro vemos isso nos episódios de roubo da faca e dos óculos pelo grupo liderado por Jack. O estado de medo se configura com o surgimento da figura do Monstro, do Senhor das Moscas, que é inclusive um instrumento para que os garotos cedam sua liberdade para Jack em busca de segurança.
Para Rousseau o comportamento do homem no estado de natureza não era tão previsível como acreditava Hobbes. Há uma variedade grande de comportamentos do ser humano, sendo que a opção pela violência ou pela empatia se daria pelo contexto histórico e pela predisposição de cada um. No livrovemos isso no comportamento diversificado dos meninos: Piggy (Porquinho) mantém sua racionalidade, Ralph sua grande empatia pelos outros, Simon com seu lado mais espiritual e Jack, mais violento.
Para Locke, mesmo no estado de natureza, o homem, apesar dos conflitos, acreditava em certos direitos naturais, como a propriedade e o respeito à vida. No livro esse pensamento é representado por Piggy, que mantém sua crença nas regras de civilização e seus símbolos (por exemplo, a concha).
Podemos ainda citar Maquiavel. Ele não discutiu o estado de natureza, se preocupando mais com a questão de como conquistar e manter o poder, tema também abordado no livro. Maquiavel discutida a necessidade do líder de ser amado ou temido. No livro vemos esse conflito se estabelecer na luta de poder entre Ralph e Jack, em que o último acaba vencendo através da intimidação e da força.
Bibliografia
[1] CHAUÍ, Marilena. Filosofia. Ed. Ática, São Paulo, ano 2000, pág. 220-223.

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