"- Em literatura, meu pequeno. todas as idéias têm direito e avesso. Tudo é bilateral no domínio do pensamento. As idéias soa binárias. Jano é o mito da critica e o simbolo do talento. Triangular não há senão Deus!"
- Você liga então importância às coisas que escreve? - perguntou-lhe Vernou com ar de zombaria. -Mas nós somos negociantes de frases e vivemos de nosso comércio. Quando você quiser fazer uma grande e bela obra, um livro, enfim, poderá colocar nele os seus pensamentos, sua alma, amá-lo, defendê-lo: mas artigos, lidos hoje e amanhã esquecidos, esses não valem a meus olhos senão aquilo que por eles nos pagam"
Para conseguir encontrar-lhe defeitos, a critica foi obrigada a inventar teorias com o propósito de distinguir duas literaturas: a que se entrega às idéias e a que recorre às imagens ... O romance, que requer sentimentos, estilo e imagens, é a maior das criações modernas. Sucede a comédia, que, entre os costumes modernos, não é mais possível com suas velhas leis ... Por isso, é o romance muito superior à discussão fria e matemática, à seca análise do século XVIII. O romance, dirás tu, setenciosamente, é uma epopéia divertida ... Conclusão: existe uma única literatura, a dos livros interessantes." [1]
"O conceito de poesia clássica e romântica, que agora corre o mundo todo e causa tanto conflito e divergência... provém originalmente de mim e de Schiller. Na poesia, tinha eu por máxima o procedimento objetivo e pretendia que apenas este valesse. Schiller, porém, que atuava de forma inteiramente subjetiva, considerava a sua maneira correta e, para defender-se de mim, escreveu o ensaio sobre poesia ingénua e sentimental. Demonstrou-me que eu próprio, contra a vontade, sou romântico e que. pelo predomínio da sensibilidade, minha Ifigénia não é assim tão clássica e tão no sentido antigo como se pudesse crer. Os Schlegel aproveitaram a idéia, de modo que agora ela se difundiu pelo mundo inteiro, e todos falam de classicismo e romantismo, nos quais há cinqüenta anos ninguém pensava"' [2]
Os seguintes trechos retirados de "Ilusões Perdidas" e de uma carta de Goethe colocam em questão a polêmica literária entre Romantismo e Classicismo, a manipulação da crítica jornalística e os enganos da crítica literária em geral, a profissionalização do trabalho do escritor e do crítico.
Balzac seguidamente em sua obra "Ilusões Perdidas" traz a luz o conflito entre estas duas correntes literárias, o conflito político entre liberais e realistas, entre jornalistas e escritores. Seria interessante tentar entender as posições tomadas por Balzac sobre estas questões. Certamente Balzac denuncia em sua obra a manipulação feita pelo jornalismo literário da época. Também há uma crítica à falta de convicção estética de Luciano e do público em geral, que se deixa guiar/enganar pelas manipulações desta crítica. Uma das "ilusões perdidas" de que fala o autor é a perda do valor estético/literário subjulgado pelo valor econômico. Mas é difícil detectarmos o verdadeiro pensamento de Balzac, já que ele fala pela boca de seus personagens e parece não intervir na obra de modo a deixar suas opiniões transparecerem.
Balzac seguidamente em sua obra "Ilusões Perdidas" traz a luz o conflito entre estas duas correntes literárias, o conflito político entre liberais e realistas, entre jornalistas e escritores. Seria interessante tentar entender as posições tomadas por Balzac sobre estas questões. Certamente Balzac denuncia em sua obra a manipulação feita pelo jornalismo literário da época. Também há uma crítica à falta de convicção estética de Luciano e do público em geral, que se deixa guiar/enganar pelas manipulações desta crítica. Uma das "ilusões perdidas" de que fala o autor é a perda do valor estético/literário subjulgado pelo valor econômico. Mas é difícil detectarmos o verdadeiro pensamento de Balzac, já que ele fala pela boca de seus personagens e parece não intervir na obra de modo a deixar suas opiniões transparecerem.
É interessante notar que o próprio Balzac foi uni exemplo desta profissionalização, sendo alvo de críticas por serem seus livros muitas vezes feito às pressas, não recebendo o merecido tratamento estético. Enfim uma resposta sobre esta questão demandaria um estudo muito mais aprofundado. Mas podemos observar que enquanto outros escritores como Hugo, Schiller, Flaubert têm uma preocupação estética mais definida, Balzac ao mencionar estas polêmicas embaralha as coisas de tal modo que acaba colocando tudo num mesmo patamar, românticos e clássicos, liberais e realistas.
Quando em um prefácio à "Comédia Humana" Balzac expõe algumas estéticas baseadas em filósofos e biólogos (Leibniz, Buffon), parece apenas procurar alguma justificação estética para fazer o que era o seu verdadeiro interesse: retratar os diversos tipos humanos. Ironicamente parece que as palavras de Lesteau ("existe uma única literatura, a dos livros interessantes") era o que realmente motivava Balzac.
A ironia de Goethe sobre a classificação de seu romance como romântico contra a sua vontade também suscita questões interessantes sobre o algo arbitrário dessas classificações, coisa que Balzac também questiona, ainda que de modo irônico ("Em literatura, meu pequeno, todas as ideias têm direito e avesso").
[1] Trechos do personagem Losteau e Vernou, de Balzac, em "Ilusões Perdidas".
[2] Goethe. "Conversas com Eckermann".
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