Uma questão sempre colocada pela crítica é que Drummond já nasceu
modernista, que não passou pelas dúvidas e dificuldades que
assaltaram outros mestres do modernismo, como Mário e Bandeira.
Bandeira, por exemplo, teve uma lenta evolução em sua caminhada em
direção ao modernismo. Simbolista em suas primeiras obras (“Cinza
das Horas”, “Carnaval”), foi acolhido como o irmão mais velho
do movimento devido a sua utilização dos versos livres. A adoção
dos novos ideias provocou de início (“Ritmo Dissoluto”) uma
poesia desmedida em que Bandeira errava por vezes o tom na sua
tentativa de ser moderno. Foi em “Libertinagem” que ele atingiu
com nitidez os ideais estéticos da nova tendência, achando o tom
que melhor lhe servia.
A primeira obra de Drummond, “Alguma Poesia”, já estava mais
próxima dos ideais estéticos do modernismo. Fez parte das obras que
marcaram o ano de 1930, juntamente com “Libertinagem” de Bandeira
e “Poemas”, de Murilo Mendes, como ressalta Mário 1:
“todos são poetas feitos, e embora dois deles só aparecem agora
com seus primeiros volumes (Drummond e Mendes), desde muito que
podiam ser poetas de livro. Mas quiseram escapar dos desastres quase
sempre fatais da juventude. Se fizeram e fazem versos não é mais
porque sejam moços, mas porque são poetas. Devia ser proibido por
lei indivíduo menor de idade, quero dizer, sem pelo menos 25 anos,
publicar livro de versos. “
O fato é que Drummond realmente seguiu este conselho e soube
escolher quando publicar em livros. Se examinarmos sua poesia
anterior a “Alguma Poesia” publicada em revistas e jornais da
época, podemos perceber que também ele teve suas dúvidas e erros
na adoção das novas idéias, como por exemplo sua adoção juvenil
à estética do Penumbrismo2:
“como explicar esta aderência juvenil de Drummond a um estética
que agora parece antiquada e um tanto absurda? Duas possibilidades
ocorrem: primeiro, não havia, como diz o próprio Drummond, outro
padrão a seguir para o jovem escritor na sua posição, que não o
restringisse da mesma maneira, ou mais. O mais interessante contudo é
descobrirem-se conflitos permanentes dentro da personalidade
literária de Drummond, resolvidos temporariamente nesta imitação
servil”.
Embora conheçamos um Drummond que sempre utilizou os versos livres,
ele mesmo nos dá a indicação que também fez suas experiências
com a métrica, que considera essencial: “hoje (Oswald) é um dos
nossos bons poetas, se bem que não entende num uma palavra de
anatomia do verso. Não passou pelo serviço militar da métrica.
Ora, eu acho isto indispensável. A gente só se liberta daquilo que
não prende. Ninguém nasce livre. O artista precisa fazer
experiências, medir as suas forças, corrigir-se, educar-se. A
metrificação emoldura a fisionomia indecisa do poeta na sua
primeira infância. Depois ele dá um tiro na moldura e fica sendo
somente o quadro”3
O importante em Drummond não é ele ter ou não já nascido
modernista, mas a evolução rápida que ele apresentou, a
consciência sobre o que eram realmente os ideais estéticos da nova
tendência, a mentalidade aberta e receptiva a mudanças e a lucidez
de pensamento sobre o processo de formação de um poeta: “(Drummond)
foi sempre em Minas o espírito mais representativo, a figura central
do movimento de renovação literária, o qual foi encontrá-lo
inteiramente novo com sua revisão dos valores literários já feita
e com a consciência da espiritualidade moderna já esclarecida4.
O Início: Alguma Poesia
A verdadeira medida da qualidade de um poeta não deve ser buscada
nos seus piores momentos, que todos os têm. O poeta não deve também
ser julgado por um ou dois grandes poemas que venha a escrever (poeta
de um único poema), embora possa bastar um único para
imortalizá-lo. A grandeza está em se ter um boa qualidade geral da
poesia e, principalmente, um bom número de grandes poemas, a ponto
de que seja difícil a definição de qual o seu melhor poema.
Segundo este critério Drummond e Pessoa não têm o que temer.
Em que pese a crítica de Mário de que algumas poesias (não
nomeadas) tem menor valor por serem do tipo poema-piada (“onde a
inteligência prejudicou o poeta e o deformou enormemente, foi em
fazer ele aderir aos poemas curtos feitos pra gente dar risada” 5),
o número de poemas de alta qualidade em Alguma Poesia já é
grande, com destaques para “No meio do Caminho”, “Poema de
sete faces” e “Quadrilha”. Um risco que os poetas correm quando
fazem poesia para se inserir num movimento é que a obra tenha um
valor apenas de confrontação, válido naquele momento, mas logo
esquecido a seguir por não ter um real valor estético, o que teria
acontecido com alguns poemas de Murilo Mendes, segundo Laís Corrêa
de Araujo: “não estamos, evidentemente, negando a validade
circunstancial estética de alguns desses poemas, mas vemos, por
exemplo, no radicalismo de História do Brasil de Murilo
Mendes (certamente, enquanto poesia, incursão criativamente
fracassada), uma atitude muito mais ‘verdadeira’ em sua intenção
parodístico-grotesco”6.
Em tal armadilha não caiu Drummond. Tomemos como exemplo “No meio
do Caminho”. É provável que Drummond tenha tido a intenção de
chocar o pensamento da época ao cometer esta audácia. Se era esta a
intenção, ele foi bem sucedido, pois o poema provocou uma grande
polêmica, passando a ser tomada como a poesia mais representativa
dos ideais que se delineavam. Mas seus valores estéticos são
evidentes, o que comprova o fato de não ter ela se perdido no tempo
como apenas um momento de contestação, mas manter seu interesse até
hoje: “o texto frio, conciso, epigramático, de Drummond, partindo
de uma relação contextual pertinente procede a uma aferição muito
mais objetiva e contundente da realidade e a uma filtragem
efetivamente crítica dos elementos de definição de uma sociedade
em decadência”7.
Mário detecta na poesia de Drummond um conflito entre a timidez e a
inteligência do poeta: “Drummond, timidíssimo, é ao mesmo tempo,
inteligentíssimo e sensibilíssimo. Coisas que se contrariam com
ferocidade. E desse combate toda a poesia dele é feita”8.
Com efeito a poesia de Drummond é sobre conflitos. É aí que está
a sua maior qualidade: saber que o conflito é a matéria prima de
formação do poeta. Mais que isto, Drummond sabe que sempre existe
algo de certo nos dois lados de uma questão, daí a importância que
dá à métrica 9.
Muitas vezes não tem certeza da resposta, o que o leva a relativar
suas conclusões, outra de suas características.
Vejamos outra poesia representativa: “Poema de sete faces”.
Mundo, mundo, vasto mundo,
Se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não uma solução.
Drummond sabe que esta é a questão a ser colocada, a das rimas, dos
versos livres, da liberdade estética. Conhece o problema e procura
uma solução, da qual suspeita: “o absurdo provém da ideia de
que uma harmonia entre duas sílabas possa significar uma harmonia
maior. Mas, de uma maneira sutil, o poeta insinua uma dúvida acerca
do absurdo desta idéia, porque aqui há rima, nem só a rima pesada
de ‘mundo-Raimundo’, como também o eco mais leve de
“coração-solução”. Esta correspondência sugere a verdadeira
função da rima: a de dar-nos harmonias que são soluções para o
coração, correspondam ou não a coisas do mundo real”10.
Drummond faz destes conflitos sua poesia. Rima sono com carne (a
mesma questão da rima ressurge), se confronta com a pedra no meio do
caminho e caminha na busca de uma solução dentro da nova proposta
estética que surgia.
1
“A poesia de 1930” , em Aspectos da Literatura Brasileira,
Mário de Andrade
2
“Os primeiros escritos de Drummond e o Modernismo”, em Poesia
e Poética de Carlos Drummond de Andrade”, John Gledson
3
“A poesia pau-brasil”, em A Noite, Carlos Drummond de
Andrade
4
“Alguma Poesia”, em O Jornal, Martins de Almeida. Rio de
Janeiro, 10 ago. 1930
segundo
“Genese e expressão grupal do
modernismo em Minas”, Fernando Correia Dias, na coletânea O
Modernismo, de Affonso Ávila
5
“A poesia de 1930”, já citada
6
“A poesia modernista de Minas”, Laís Corrêa de Araújo, na
coletênea O Modernismo, de Affonso Ávila
7
Ibidem
8
“A poesia de 1930”, já citada
9
“A poesia pau-brasil”, já citada
10
“Os primeiros escritos de Drummond e o Modernismo”, já citada.
Bibliografia
ANDRADE, Mário. Aspectos da literatura brasileira. Livraria Martins Editora
ÁVILA, Affonso. O Modernismo. Editora Perspectiva
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira Editora Cultrix.
ANDRADE, Mário. Aspectos da literatura brasileira. Livraria Martins Editora
ÁVILA, Affonso. O Modernismo. Editora Perspectiva
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira Editora Cultrix.
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