sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Antecedentes Modernistas de Drummond

Uma questão sempre colocada pela crítica é que Drummond já nasceu modernista, que não passou pelas dúvidas e dificuldades que assaltaram outros mestres do modernismo, como Mário e Bandeira. Bandeira, por exemplo, teve uma lenta evolução em sua caminhada em direção ao modernismo. Simbolista em suas primeiras obras (“Cinza das Horas”, “Carnaval”), foi acolhido como o irmão mais velho do movimento devido a sua utilização dos versos livres. A adoção dos novos ideias provocou de início (“Ritmo Dissoluto”) uma poesia desmedida em que Bandeira errava por vezes o tom na sua tentativa de ser moderno. Foi em “Libertinagem” que ele atingiu com nitidez os ideais estéticos da nova tendência, achando o tom que melhor lhe servia.
A primeira obra de Drummond, “Alguma Poesia”, já estava mais próxima dos ideais estéticos do modernismo. Fez parte das obras que marcaram o ano de 1930, juntamente com “Libertinagem” de Bandeira e “Poemas”, de Murilo Mendes, como ressalta Mário 1: “todos são poetas feitos, e embora dois deles só aparecem agora com seus primeiros volumes (Drummond e Mendes), desde muito que podiam ser poetas de livro. Mas quiseram escapar dos desastres quase sempre fatais da juventude. Se fizeram e fazem versos não é mais porque sejam moços, mas porque são poetas. Devia ser proibido por lei indivíduo menor de idade, quero dizer, sem pelo menos 25 anos, publicar livro de versos. “
O fato é que Drummond realmente seguiu este conselho e soube escolher quando publicar em livros. Se examinarmos sua poesia anterior a “Alguma Poesia” publicada em revistas e jornais da época, podemos perceber que também ele teve suas dúvidas e erros na adoção das novas idéias, como por exemplo sua adoção juvenil à estética do Penumbrismo2: “como explicar esta aderência juvenil de Drummond a um estética que agora parece antiquada e um tanto absurda? Duas possibilidades ocorrem: primeiro, não havia, como diz o próprio Drummond, outro padrão a seguir para o jovem escritor na sua posição, que não o restringisse da mesma maneira, ou mais. O mais interessante contudo é descobrirem-se conflitos permanentes dentro da personalidade literária de Drummond, resolvidos temporariamente nesta imitação servil”.
Embora conheçamos um Drummond que sempre utilizou os versos livres, ele mesmo nos dá a indicação que também fez suas experiências com a métrica, que considera essencial: “hoje (Oswald) é um dos nossos bons poetas, se bem que não entende num uma palavra de anatomia do verso. Não passou pelo serviço militar da métrica. Ora, eu acho isto indispensável. A gente só se liberta daquilo que não prende. Ninguém nasce livre. O artista precisa fazer experiências, medir as suas forças, corrigir-se, educar-se. A metrificação emoldura a fisionomia indecisa do poeta na sua primeira infância. Depois ele dá um tiro na moldura e fica sendo somente o quadro”3
O importante em Drummond não é ele ter ou não já nascido modernista, mas a evolução rápida que ele apresentou, a consciência sobre o que eram realmente os ideais estéticos da nova tendência, a mentalidade aberta e receptiva a mudanças e a lucidez de pensamento sobre o processo de formação de um poeta: “(Drummond) foi sempre em Minas o espírito mais representativo, a figura central do movimento de renovação literária, o qual foi encontrá-lo inteiramente novo com sua revisão dos valores literários já feita e com a consciência da espiritualidade moderna já esclarecida4.

O Início: Alguma Poesia

A verdadeira medida da qualidade de um poeta não deve ser buscada nos seus piores momentos, que todos os têm. O poeta não deve também ser julgado por um ou dois grandes poemas que venha a escrever (poeta de um único poema), embora possa bastar um único para imortalizá-lo. A grandeza está em se ter um boa qualidade geral da poesia e, principalmente, um bom número de grandes poemas, a ponto de que seja difícil a definição de qual o seu melhor poema. Segundo este critério Drummond e Pessoa não têm o que temer.
Em que pese a crítica de Mário de que algumas poesias (não nomeadas) tem menor valor por serem do tipo poema-piada (“onde a inteligência prejudicou o poeta e o deformou enormemente, foi em fazer ele aderir aos poemas curtos feitos pra gente dar risada” 5), o número de poemas de alta qualidade em Alguma Poesia já é grande, com destaques para “No meio do Caminho”, “Poema de sete faces” e “Quadrilha”. Um risco que os poetas correm quando fazem poesia para se inserir num movimento é que a obra tenha um valor apenas de confrontação, válido naquele momento, mas logo esquecido a seguir por não ter um real valor estético, o que teria acontecido com alguns poemas de Murilo Mendes, segundo Laís Corrêa de Araujo: “não estamos, evidentemente, negando a validade circunstancial estética de alguns desses poemas, mas vemos, por exemplo, no radicalismo de História do Brasil de Murilo Mendes (certamente, enquanto poesia, incursão criativamente fracassada), uma atitude muito mais ‘verdadeira’ em sua intenção parodístico-grotesco”6.
Em tal armadilha não caiu Drummond. Tomemos como exemplo “No meio do Caminho”. É provável que Drummond tenha tido a intenção de chocar o pensamento da época ao cometer esta audácia. Se era esta a intenção, ele foi bem sucedido, pois o poema provocou uma grande polêmica, passando a ser tomada como a poesia mais representativa dos ideais que se delineavam. Mas seus valores estéticos são evidentes, o que comprova o fato de não ter ela se perdido no tempo como apenas um momento de contestação, mas manter seu interesse até hoje: “o texto frio, conciso, epigramático, de Drummond, partindo de uma relação contextual pertinente procede a uma aferição muito mais objetiva e contundente da realidade e a uma filtragem efetivamente crítica dos elementos de definição de uma sociedade em decadência”7.
Mário detecta na poesia de Drummond um conflito entre a timidez e a inteligência do poeta: “Drummond, timidíssimo, é ao mesmo tempo, inteligentíssimo e sensibilíssimo. Coisas que se contrariam com ferocidade. E desse combate toda a poesia dele é feita”8. Com efeito a poesia de Drummond é sobre conflitos. É aí que está a sua maior qualidade: saber que o conflito é a matéria prima de formação do poeta. Mais que isto, Drummond sabe que sempre existe algo de certo nos dois lados de uma questão, daí a importância que dá à métrica 9. Muitas vezes não tem certeza da resposta, o que o leva a relativar suas conclusões, outra de suas características.
Vejamos outra poesia representativa: “Poema de sete faces”.

Mundo, mundo, vasto mundo,
Se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não uma solução.

Drummond sabe que esta é a questão a ser colocada, a das rimas, dos versos livres, da liberdade estética. Conhece o problema e procura uma solução, da qual suspeita: “o absurdo provém da ideia de que uma harmonia entre duas sílabas possa significar uma harmonia maior. Mas, de uma maneira sutil, o poeta insinua uma dúvida acerca do absurdo desta idéia, porque aqui há rima, nem só a rima pesada de ‘mundo-Raimundo’, como também o eco mais leve de “coração-solução”. Esta correspondência sugere a verdadeira função da rima: a de dar-nos harmonias que são soluções para o coração, correspondam ou não a coisas do mundo real”10.

Drummond faz destes conflitos sua poesia. Rima sono com carne (a mesma questão da rima ressurge), se confronta com a pedra no meio do caminho e caminha na busca de uma solução dentro da nova proposta estética que surgia.



1 “A poesia de 1930” , em Aspectos da Literatura Brasileira, Mário de Andrade
2 “Os primeiros escritos de Drummond e o Modernismo”, em Poesia e Poética de Carlos Drummond de Andrade”, John Gledson
3 “A poesia pau-brasil”, em A Noite, Carlos Drummond de Andrade
4 “Alguma Poesia”, em O Jornal, Martins de Almeida. Rio de Janeiro, 10 ago. 1930
segundo
“Genese e expressão grupal do modernismo em Minas”, Fernando Correia Dias, na coletânea O Modernismo, de Affonso Ávila
5 “A poesia de 1930”, já citada
6 “A poesia modernista de Minas”, Laís Corrêa de Araújo, na coletênea O Modernismo, de Affonso Ávila
7 Ibidem
8 “A poesia de 1930”, já citada
9 “A poesia pau-brasil”, já citada
10 “Os primeiros escritos de Drummond e o Modernismo”, já citada.

Bibliografia 

ANDRADE, Mário. Aspectos da literatura brasileira. Livraria Martins Editora

ÁVILA, Affonso.  O Modernismo. Editora Perspectiva

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira  Editora Cultrix.

GLEDSON, John. Poesia e Poética de Carlos Drummond de Andrade. Livraria Duas Cidades

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