sexta-feira, 2 de agosto de 2019

As Traduções do "Apanhador No Campo de Centeio"

A tradução da obra "Apanhador No Campo de Centeio" (cujo título já foi traduzido como "Uma agulha no Palheiro") é um desafio porque J. D. Salinger soube como poucos capturar a linguagem do jovem da época. Uma tradução moderna precisa fazer o mesmo: trazer a obra para a linguagem do jovem atual.  Assim a leitura do livro em português a partir de traduções antigas não reproduz o impacto que o livro teve em sua época. É preciso refazer a tradução de tempos em tempos. A bem da verdade, o próprio texto original precisaria hoje ser "traduzido" do inglês falado pelos jovens da época em que ele foi escrito para o inglês dos jovens de hoje.

Para entender como essa obra seminal foi traduzida para o português apresentamos a seguir exemplos de algumas de suas traduções e uma proposta de tradução para a época atual (nem tão atual assim, já que a proposta já é de muitos anos atrás...).

  • 1o. trecho: 
Texto Original: 
“If you really want to hear about it, the first thing you’ll probably want to know is where I was born, and what my lousy childhood was like, and how my parents were occupied and all before they had me, and all that David Copperfield kind of crap, but I don`t feel like going into it, if you want to know the truth. In the first place, that stuff bores me, and in the second place, my parents would have about two hemorrhages apiece if I told anything pretty personal about them. They’re quite touchy about anything like that, specially my father. They’re nice and all - I’m not saying that - but ther’re also touchy as hell. Besides, I`m not going to tell you my whole goddam autobiography or anything. I’ll just tell you about this madman stuff that happened to me around last Christmas just before I got pretty run-down and had to come out here and take it easy. I mean that’s all I told D.B. about, and he’s my brother and all. He’s in Hollywood. That isn’t too far from this crumby place, and he comes over and visits me practically every weekend. He’s going to drive me home when I go home next month maybe. He just got a Jaguar. One of those little English jobs that can do around two hundred miles an hour. It cost him damn near four thousand bucks. He’s got a lot of dough, now. He didn`t use to. He used to be just a regular writer, when he was home. He wrote this terrific book of short stories, The Secret Goldfish, in case you never heard of him. The best one in it was “The Secret Goldfish”. It was about this little kid that would’t let anybody look at his goldfish because he’d bought it with his own money. It killed me. Now he’s out in Hollywood, D.B., being a prostitute. If there’s one thing I hate, it’s the movies. Don’t even mention them to me.” 

Tradução de Álvaro Alencar/Antônio Rocha/Jório Dauster: 
Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lenga-lenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso. Em primeiro lugar, esse negócio me chateia e, além disso, meus pais teriam um troço se eu contasse qualquer coisa íntima sobre eles. São um bocado sensíveis a esse tipo de coisa, principalmente meu pai. Não é que eles sejam ruins - não é isso que estou dizendo - mas são sensíveis pra burro. E, afinal de contas, não vou contar a droga da minha autobiografia nem nada. Só vou contar esse negócio de doido que me aconteceu no último Natal, pouco antes de sofrer um esgotamento e de me mandarem para aqui, onde estou me recuperando. Foi só isso o que contei ao D.B., e ele é meu irmão e tudo. Ele está em Hollywood. Não é muito longe desse pardieiro, e ele vem me visitar quase todo fim de semana. Quando eu voltar para casa, talvez no mês que vem, é ele quem vai me levar de carro. Comprou a pouco tempo um Jaguar, um desses carrinhos ingleses que fazem uns trezentos quilômetros por hora e que custou uns quatro mil dólares. D.B. agora vive nadando em dinheiro, mas antigamente a coisa era outra. Quando morava conosco era apenas um escritor. Se é que nunca ouviram falar nele, foi D.B. quem escreveu aquele livro de contos fabuloso, O Misterioso Peixinho Dourado. O melhor conto do livro era a estória do garotinho que não deixava ninguém ver seu peixe dourado, só porque o tinha comprado com seu próprio dinheiro. Achei o máximo. Agora D.B. está em Hollywood, se prostituindo. Se há coisa que eu odeie, é cinema. Não posso nem ouvir falar de cinema perto de mim. 

Tradução de João Palma-Ferreira: 
“Se realmente estão interessados nisto, a primeira coisa que desejarão saber é o local onde nasci, o modo como passei a minha estúpida infância, a ocupação dos meus pais, o que faziam antes de eu nascer, e tudo o mais, como se tratasse de David Copperfield. Mas eu não estou com disposição para isso, se, de fato, querem que vos conte a verdade. 

Em primeiro lugar, essas coisas aborrecem-me, e, em segundo lugar, os meus pais teriam duas hemorragias cerebrais se eu revelasse qualquer fato pessoal que lhes dissesse respeito. São muito sensíveis quanto a essas coisas.; especialmente o meu pai. Não digo que não sejam boas pessoas, mas são sensíveis como os diabos. Além disso, não vos vou fazer a minha autobiografia ou coisa semelhante. Sós vos falarei do que se passou comigo durante o passado Natal, antes de ficar um pouco confuso e de ter que vir para aqui. Aliás, será tudo o que já contei a D.B. E ele é meu irmão. Vive em Hollywood, que não fica muito longe desta bodega, e vem visitar-me praticamente todas as semanas. É ele quem me levará quando eu for para casa, talvez para o mês que vem. Comprou um Jaguar há pouco tempo, um desses carros ingleses que conseguem fazer cento e cinqüenta quilômetros por hora. Custou-lhe perto de quatro mil dólares. Mas ele agora tem muita massa. Antigamente não tinha. Quando vivia conosco não passava de um escritor vulgar. Escreveu um livro de contos terrível - O Peixe Secreto. Tratava-se de um rapaz que não permitia que ninguém contemplasse o seu peixe, porque o comprara com as suas economias. Esse conto ia-me matando. Agora o meu irmão, o D.B., está em Hollywood e é uma espécie de prostituta. Se há coisas que eu odeie, o cinema é uma delas. Será preferível nunca me falarem nele.” 

Tradução proposta: 
Se você quer mesmo ouvir sobre isso, com certeza a primeira coisa que você vai querer saber é onde eu nasci, e como foi a minha infância nojenta, e o que os meus pais faziam antes de me terem, e toda esta merda tipo David Copperfield, mas eu não vou entrar nessa não, entende. Primeiro, esse assunto me enche. Segundo, meus pais teriam dois derrames de uma vez se eu contasse algo pessoal sobre eles, especialmente meu pai. Eles são legais e tudo - eu não estou dizendo que não - mas eles são sensíveis pra caralho. Além disso, eu não vou contar a droga da minha autobiografia, nem nada assim. Eu só vou falar dessa coisa louca que me aconteceu no último Natal pouco antes de eu ter ficado super pra baixo e ter vindo pra cá relaxar. Foi isto que eu disse pro D.B., ele é meu irmão blá blá blá. Ele está em Hollywood. Não é muito longe deste lugar chatíssimo, e ele vem me visitar praticamente todo final de semana. Ele vai me levar de carro pra casa quando eu voltar, talvez no mês que vem. Ele acabou de comprar um Jaguar. Um desses carrinhos ingleses que faz uns trezentos quilômetros por hora . Custou uns puta quatro mil dólares. Agora ele tá cheio de grana mas antes não tinha nada. Ele era só um escritor comum, quando morava com a gente. Se você nunca ouvir falar nele, ele escreveu aquele livro de contos danado de bom, o Mistério do Peixe Dourado. O melhor conto é este do peixe. É sobre um garotinho que não queria deixar ninguém ver seu peixinho dourado porque comprou ele com seu próprio dinheiro. Demais. Agora ele está em Hollywood, o D.B., bancando a prostituta. Se tem algo que eu odeio, são filmes. Nem fale disso pra mim.

  • 2o. Trecho

Texto Original: 
The first thing when I got in the elevator, the elevator guy said to me, “Innarested in having a good time, fella? Or it’s too late for you?” 
“How do you mean?”. I said. I didn’t know what he was driving at or anything. 
“Innarested in a little tail tail t’night?” 
“Me?” I said. Which was a very dumb answer, but it’s quite embarrassing whem somebody comes right up and ask you a question like that. 
“How old are you, chief? “ the elevator guy said. 
“Why?” I said. “Twenty-two” 
“Uh huh”. Well, how ‘bout it? Y’nnarested? Five bucks a throw. Fifteen bucks the whole night.” He looked at this wrist watch. “Till noon. Five bucks a throw, fifteen bucks till noon.” 
“Okay, ” I Said. It was against my principles and all, but I was feeling so depressed I didn`t even think. That’s the whole trouble. When you’re feeling very depressed, you can’t even think. 
“Okay, what? A throw, or till noon? I gotta know.” 
“Just a throw” 
“Okay, what room ya in?” 
I looked at the red thing with my number on it, on my key. “Twelve twenty-two, ” I said. I was already sort of sorry I’d let the thing start rolling, but it was too late now. 
“Okay. I’ll send a girl up in about fifteen minutes.” He opened the doors and I got out. 
“Hey, is she good-looking?” I asked him. “I don’t want any old bag.” 
“No old bag. Don’t worry about it, chief.” 
“Who do I pay?” 
“Her,” he said. “Let’s go, chief” 

Tradução de Álvaro Alencar/Antônio Rocha/Jório Dauster: 
Mal entrei no elevador, o cabineiro perguntou: - Que tal uma diversãozinha, meu chapa? Ou já está muito tarde pra você? 
- Como é que é? - perguntei. Não sabia aonde ele queria chegar nem nada. 
- Tá interessado num rabo de saia pra hoje de noite? 
- Eu? - respondi. Era o tipo da resposta idiota, mas a gente fica sem jeito quando um sujeito pergunta um troço desses assim de surpresa. 
- Qual é tua idade., chefe? - perguntou o cabineiro. 
- Por quê? Vinte e dois. 
- Hum, hum. Bom, como é que é? Tá interessado? Cinco pacotes uma bimbada, quinze pacotes até meio-dia. 
- Tá bom - eu disse. Era contra meus princípios e tudo, mas eu estava me sentindo tão deprimido que nem pensei. Esse é que é o problema. Quando a gente está se sentido muito deprimido não consegue nem pensar. 
- Tá bom o quê? Uma hora ou até o meio-dia? Tenho que saber. 
- Só uma hora. 
- Tá bem, qual é o seu quarto? 
Olhei o trocinho vermelho, pendurado na chave, que tinha o número do meu quarto. - Mil duzentos e vinte e dois - falei. Já estava me sentindo meio aporrinhado de ter embarcado naquela estória, mas agora era tarde. 
- Perfeito. Vou mandar uma garota lá daqui a quinze minutos. 
Abriu a porta do elevador e eu saí. 
- Ei, ela é boa? - perguntei. - Não quero nenhum bagulho. 
- Que bagulho nada, pode ficar tranqüilo, chefe. 
- A quem eu pago? 
- A ela - respondeu. - Vambora, chefe. 

Tradução proposta: 
Logo que entrei no elevador, o ascensorista falou pra mim: 
“Tá a fim dum programa, amigo? Ou é muito tarde pra você?” 
“Não entendi” falei. Eu não percebi nada do que tava rolando. 
“Tá a fim de dar uma?” 
“Eu?” falei. O que era uma resposta pra lá de besta, mas é embaraçoso quando falam com a gente de surpresa sobre um assunto desse. 
“Que idade cê tem, chefia?” o cara falou. 
“Por quê? ” falei. “Vinte e dois” 
“Uhhm”. Tá. E então? Tá a fim? Cinco pratas uma metida. Quinze a noite toda.” Ele espiou seu relógio. “Até o meio-dia. Cinco pratas uma trepada, quinze até o meio-dia.” 
“OK,” falei. Era contra meus princípios blá blá blá, mas eu estava tão deprimido que nem pensei. Esse foi o problema. Quando você está deprimido, você nem pára pra pensar. 
“OK o quê? Uma metida, ou até o meio-dia? O que vai ser?” 
“Só uma metida.” 
“OK. Que quarto cê tá?” 
Eu espiei o número na etiqueta da minha chave, “Mil duzentos e vinte e dois, ” falei. Eu já estava arrependido, mas agora era tarde. 
“OK. Eu mando uma garota subi em 15 minutos.” Ele abriu as portas e eu dei o fora. 
“Ei, ela tem boa aparência?” perguntei? “Eu não quero nenhuma puta velha” 
“É coisa fina. Pó confiá, chefia” 
“Pra quem eu pago?” 
“Pra ela” ele falou. “Vambora” 
  • 3o. Trecho
Texto original: 
“Allow me to introduce myself. My name is Jim Steele,” I said. 
“Ya got a watch on ya? “ she said. She didn’t care what the hell my name was, naturally. “Hey, how old are you, anyways?” 
“Me? Twenty-two>” 
“Like fun you are.” 
It was a funny thing to say. It sounded like a real kid. You’d think a prostitute and all would say “Like hell you are” or “Cut the crap” instead of “Like fun you are. “ 
“How old are you?” I asked her. 
“Old enough to know better,” she said. She was really witty. “Ya got a watch on ya?” she asked me again, and then she stood up and pulled her dress over her head. 
I certainly felt peculiar when she did that. I mean she did it so sudden and all. I know you’re supposed to feel pretty sexy when somebody gets up and pulls their dress over their head, but I didn’t. Sexy was about the last thing I was feeling. I felt much more depressed than sexy. 
“Ya got a watch on ya, hey?” 
“No. No, I don’t,” I said. Boy, was I feeling peculiar. 

Tradução de Álvaro Alencar/Antônio Rocha/Jório Dauster: 
- Permita que eu me apresente. Meu nome é Jim Steele. 
- Você tem um relógio aí? - ela perguntou. Evidentemente, estava pouco ligando para o meu nome. - Ei, espera aí, quantos anos você tem? 
- Eu? Vinte e dois. 
- Ah, essa não! 
Era o tipo de coisa gozada dela dizer, parecia uma criança. A gente espera que uma prostituta responda “não aporrinha”, ou “vai à merda”, em vez de “essa não”. 
- E quantos anos você tem? - perguntei. 
- O bastante para não ser tapeada - foi a resposta que me deu. Era realmente um bocado espirituosa. - Você tem um relógio aí? - insistiu, e aí se levantou e tirou o vestido por cima da cabeça. 
Tenho que confessar que me senti meio esquisito quando ela fez isso. É de se esperar que a gente fique todo excitado quando alguém se levanta e tira o vestido por cima da cabeça, mas não fiquei não. Excitado era talvez a última coisa que eu estava me sentindo. Estava muito mais deprimido do que excitado. 
- Ei, você tem ou não tem um relógio aí contigo? 
- Não, não tenho não - respondi. Puxa, estava me sentindo esquisito.

Tradução proposta: 
“Permita que eu me apresente. Meu nome é Jim Steele,” falei. 
“Cê tem hora aí” ela falou. É claro que ela não estava nem aí pro meu nome. “E aí qual a sua idade?” 
“Eu? Vinte e Dois” 
“Ah, Tá bom” 
“Era meio engraçado que ela falasse assim, parecia um criança. A gente espera que uma prostituta vá dizer algo como “Conta outra, porra” ou “Deixa de merda” ao invés de “Ah, Tá bom” 
“E quantos anos você tem? “ perguntei. 
“O bastante pro meu negócio” ela falou. Super espirituosa. “Cê tem hora aí” ela perguntou de novo, e então se levantou e foi tirando toda a roupa. 
Eu me senti meio estranho quando ela fez isso. Foi tudo muito rápido. Eu sei que era de se esperar que eu ficasse excitado assim com uma mulher tirando a roupa na minha frente, mas eu não fiquei não. Excitado era a última coisa que eu tava sentindo. Eu tava muito mais deprimido que excitado. 
“Cê tem hora aí, meu” 
“Não, não tenho,” Cara, eu tava me sentindo muito estranho. 

  • 4o. trecho
Texto original: 
“Look,” I said. “I don’t feel very much like myself tonight. I’ve had a rough night. Honest to God. I’ll pay you and all, but do you mind very much if we don’t do it? Do you mind very much? “ The trouble was, I just didn’t want to do it. I felt more depressed than sexy, if you want to know the truth. She was depressing. Her green dress hanging in the closet and all. And besides, I don’t think I could ever do it with somebody that sits in a stupid movie all day long. I really don’t think I could. 
She came over to me, with this funny look on her face, like as she didn’t believe me. “What’sa matter?” she said. 
“Nothing’s the matter.” Boy, was I getting nervous. “The thing is, I had an operation very recently.” 
“Yeah? Where? “ 
“On my wuddayacallit - my clavichord.” 
“Yeah? Where the hell’s that?” 
“The clavichord?” I said. “Well, actually, it’s in the spinal canal. I mean it’s quite a ways down in the spinal canal.” 
“Yeah?” she said. “That’s tough.” Then she sat down on my goddam lap. “You’re cute.” 
She made me so nervous, I just kept on lying my head off. 
... 
Then she started getting funny. Crude and all. 
“Do you mind cutting it out? “ I said. “I’m not in the mood, I just told you. I just had an operation.” 
She didn’t get up from my lap or anything, but she gave this terrifically dirty look. “Listen,” she said. “I was sleepin’ when that crazy Maurice woke me up. If you think I’m -“ 
I said I’d pay you for coming and all. I really will. I have plenty of dough. It’s just that I’m practically just recovering from a very serious -“ 
“What the heck did you tell that crazy Maurice you wanted a gilr for, then? If you just had a goddam operation on your goddam wuddayacallit. Huh? “ 
“I thought I’d be feeling a lot better that I do. I was a little premature in my calculations. No kidding. I’m sorry. If you’ll just get up a second, I’ll get my wallet. I mean it.” 

Tradução de Álvaro Alencar/Antônio Rocha/Jório Dauster: 
- Olha - eu disse - não estou me sentindo muito bem hoje. Tive uma noite desgraçada. No duro. Eu te pago e tudo. Você se importa se a gente não fizer o troço? Você se importa? 
O problema é que, pura e simplesmente, eu não queria fazer o troço. Para ser sincero, estava mais deprimido do que excitado. Ela era deprimente. O vestido verde pendurado no armário e tudo. E, além disso, acho que eu não poderia nunca fazer esse troço com alguém que passa o dia inteiro sentada numa porcaria dum cinema. Acho que não poderia mesmo. 
Ela se aproximou de mim, assim com um olhar engraçado, como se não estivesse me acreditando: - Que que há? - perguntou. 
- Não há nada - respondi. Puxa, já estava começando a ficar nervoso. - Acontece que eu fui operado há pouco tempo. 
- É? Aonde? 
- No meu... como é que se chama ... no meu clavicórdio. 
- Como é que é? Onde é que fica isso? 
- O clavicórdio? Bem, para dizer a verdade, é na coluna vertebral! Quer dizer, é bem lá embaixo na espinha. 
- É mesmo? - ela disse. - Que pena. 
Aí ela sentou na droga do meu colo. 
- Você é bonitinho. 
Ela me punha tão nervoso que eu continuei mentindo como um louco. 
... 
Aí ela começou a se fazer de engraçadinha. Pra valer. 
- Você se importa de parar com isso? Não estou com vontade, já disse. Acabei de fazer essa operação. 
Nem assim saiu do meu colo, mas me jogou um olhar furioso. 
- Olha , eu estava dormindo quando esse maluco desse Maurice foi me acordar. Se você pensa que eu... 
- Já disse que vou te pagar e tudo por você ter vindo. Vou pagar mesmo. Tenho um bocado de dinheiro. O problema é que ainda estou me recuperando de uma séria... 
- Então pra quê você disse que queria uma garota a esse maluco do Maurice? Se você acabou de fazer uma droga duma operação da porcaria do teu negócio... Hem? 
- Pensei que estaria me sentido muito melhor do que estou. Fui um pouco prematuro nos meus cálculos. Sem brincadeira, me desculpe. Se você se levantar só um segundo vou apanhar minha carteira. No duro. 

Tradução proposta: 
“Olha,” disse. “Eu não estou me sentindo muito bem hoje. Eu tive uma noite difícil. Juro por Deus. Eu vou pagar cê sabe, mas você se importaria se nós não transarmos? Você se importaria?” Pra ser sincero o problema era que eu não queria transar. Eu tava mais deprimido que excitado, cê entende. Ela era deprimente. O vestidinho verde dela balançando no armário cê entende. Além disso, eu acho que eu nunca transaria com alguém que fica o dia todo sentada assistindo um filme estúpido. Até duvido que eu seria capaz. 
Ela veio pra cima de mim, com um meio sorriso no rosto, como se ela não estivesse acreditando. “Qualé o problema” falou. 
“Não é nada.” Cara, eu tava ficando nervoso. “O problema é, eu fui operado faz pouco tempo.” 
“É? Onde?” 
“No meu comosechama - meu clavicórdio.” 
“É? Que porra é esta?” 
“O clavicórdio?” falei. “Bem, na verdade, é na coluna. Quer dizer bem lá embaixo na coluna.” 
“É?” falou. “Que chato” Aí ela sentou na porra do meu colo. “Você é uma gracinha.” 
Ela me deixava tão nervoso que eu não conseguia parar de mentir. 
... 
Aí ela começou a brincar. Pra valer, cê entende. 
“Você se importa de parar pô?” falei. “Eu não estou a fim, já disse. Eu acabei de ser operado.” 
Ela não saiu do meu colo nem nada, mas me olhou com uma puta raiva. “Olhe” falou. “Eu tava durmindo quando a besta do Maurice me acordô. Se você acha ...” 
Eu já falei que eu vou pagar, cê entende. Eu vou mesmo. Eu tô cheio da grana. É que eu estou me recuperando de uma operação muito séria ...” 
“Pô, por que então cê falou pra besta do Maurice que você queria uma garota? Se você acabou de fazer uma porra duma operação na porra do seu sei lá o quê. Heim ?” 
“Eu pensei que eu já estava bom. Mas eu me enganei. É sério. Desculpa. Se você se levantar só um segundinho, eu pego a minha carteira. Sério.” 

5o. Trecho: 

Texto original: 
“What’s the matter? Wuddaya want?” I said. Boy, my voice was shaking like hell. 
“Nothin’ much,” old Maurice said. “Just five bucks.” 
... 
I paid her already. I gave her five bucks. Ask her,” I said. Boy, was my voice shaking. 
“It’s tem bucks, chief. I tole ya that. Ten bucks for a throw, fifteen bucks till noon, all right, but I distinctly heard you -“ 
“Open up, chief.” 
“What for? “ I said. God, my old heart was damn near beating me out of the room. I wished I was dressed at least. It’s terrible to be just in your pajamas when something like that happens. 
“Let’s go, chief,” old Maurice said. Then he gave me a big shove with his crumby hand. I damn near fell over on my can - he was a huge sonuvabitch. The next thing I knew, he and old Sunny were both in the room. They acted like they owned hte damn place. Old Sunny sat down in the big chair and loosened his collar and all - he was wearing this elevator operator’s uniform. Boy, was I nervous. 
“All right, chief, let’s have it. I gotta get back to work.” 
“I told you about ten times, I don’t owe you a cent. I already gave her the five -“ 
“Cut the crap, now. Let’s have it.” 

Tradução de Álvaro Alencar/Antônio Rocha/Jório Dauster: 
- Quê que há? Quê que vocês querem? - perguntei com uma voz que não era lá das mais firmes. 
- Pouca coisa - o tal de Maurice disse. - Só cinco dólares. 
... 
- Já paguei. Dei cinco dólares a ela. Pode perguntar. 
Puxa, como minha voz estava tremendo. 
- São dez, chefe. Dez por uma bimbada e quinze até o meio-dia. Eu te avisei. 
- Não foi isso que você disse. Você disse cinco dólares por uma bimbada. Quinze até o meio-dia está certo, mas ouvi perfeitamente... 
- Abre aí, chefe. 
- Pra quê? -perguntei 
Puxa, meu coração batia tanto que por pouco não me derrubava no chão. Queria, pelo menos, estar vestido. É horrível a gente estar só de pijama quando acontece um troço desses. 
- Vamos logo, chefe - Maurice disse. Aí me deu um empurrão, com aquela mão nojenta. Quase caí sentado. O filho da puta era forte pra burro. Quando dei por mim, os dois já estavam dentro do quarto. Pareciam até os donos daquela droga. Ela sentou no peitoril da janela. O Maurice sentou na poltrona e afrouxou a colarinho do uniforme de ascensorista. Puxa, como eu estava nervoso. 
- Pronto, chefe, vai passando a nota. Tenho que voltar pro trabalho. 
- Já disse mais de dez vezes. Não devo um centavo a ninguém. Já dei cinco a ela... 
- Como é... Chega de conversa. Vai passando a nota.

Bibliografia

SALINGER, J.D. The Catcher In The Rye. Little, Brown Books. Boston.
_. “Apanhador no Campo de Centeio”. Tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha, Jório Dauster. Editora do Autor. 10. Edição.
_. “Uma agulha no Palheiro”. Tradução de João Palma-Ferreira. Edição Livros do Brasil Lisboa.

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