Mário de Andrade tinha um profundo interesse de que sua obra contribuísse para a resolução dos problemas de sua terra, que tivesse um valor utilitário para seus conterrâneos, buscando algo mais do que somente o prazer estético. Neste intuito, conforme ele mesmo confessa [1], dedicou-se a profundas pesquisas sobre a Cultura Brasileira e atuou sempre em favor do que julgava ser este interesse, como por exemplo na sua luta para que se escrevesse no Brasil de um modo "legitimamente" brasileiro, ao contrário do modo "luso" adotado.
Foi nesta busca que Mário se interessou por teorias históricas que influenciaram em muito o seu pensamento, sobretudo na concepção de Macunaíma, de tal ordem que até o enredo dessa obra pode ser visto como uma metáfora destas teorias. Entre essas teorias podemos citar as de Herder, Spengler e Keyserling.
A influência do pensamento de Herder sobre Mário de Andrade se fez, provavelmente, através do projeto literário adotado em comum com José de Alencar, reconhecidamente uma grande influência para Mário de Andrade [2].
As idéias colocadas por Herder foram fundamentais para o movimento Romântico e foram adotadas com intensidade e paixão por José de Alencar. Herder via a língua como elemento fundamental para definição de uma raça, bem como o desenvolvimento de uma tradição literária que representasse os grandes valores da raça. Alencar tomou a si a tarefa de fundar esta língua, de participar da construção desta tradição literária. Para isto seguiu um projeto literário ambicioso, que teve em boa parte sucesso, tomando como base as tradições populares do Brasil. Mário também tomou a si esta missão de dar uma cultura ao povo brasileiro, até na parte mais quixotesca de desenvolvimento de uma língua brasileira. Assim a busca de uma língua brasileira, o uso das tradições populares, a associação entre raça e cultura são aspectos derivados de Herder que também percebemos em Mário. No enredo da obra a influência dos motivos populares é uma constante. A discussão sobre o uso de uma língua escrita brasileira em oposição à portuguesa é, de modo cômico, destacado no episódio da "Carta às Icamiabas".
A influência de Spengler pode ser determinada mais diretamente na obra de Mário. Em verdade a própria obra de Keyserling foi citada por Mário como tendo influenciado na confecção de Macunaíma, e sua teoria nada mais é do que uma outra abordagem das idéias de Spengler.
A concepção de Spengler aparece no próprio enredo da obra, de modo metafórico. Macunaíma é o representante da cultura brasileira. Seu nascimento como filho do silêncio (filho da terra) é o nascimento da própria cultura brasileira. No momento de sua "morte", Macunaíma retruca: "NÃO VIM NO MUNDO PARA SER PEDRA". É uma citação explícita da teoria de Spengler: um grito de revolta contra o destino, inevitável da culturas, de se tomarem pedra. Macunaíma prefere sair do mundo para virar tradição. A referência à petrificação aparece em mais de uma situação. Ao deixar São Paulo, Macunaíma "vira" a cidade "num bicho preguiça todinho de pedra". A luta de Macunaíma para a recuperação da muiraquitã é contra Venceslau Pietro Pietra. Venceslau representa a cultura do imigrante italiano, é o europeu, que segundo Spengler é um povo felá, que já virou pedra, como é dito claramente no próprio nome de Venceslau (em italiano, Pieira é pedra).
Como a muiraquitã é o símbolo da união da raça brasileira (Macunaíma) com a natureza tropical (Ci, a mãe do mato), a tentativa do europeu de ficar com a muiraquitã é uma metáfora de uma ideia cara a Mário: o europeu está roubando a possibilidade brasileira de ter uma cultura. Ainda assim a culpa maior é de Macunaíma, já que é ele que perde a muiraquitã quando foge de Capei, a lua. A fuga da tradição (representada por Capei) leva à perda do símbolo da união da raça e da natureza. Do mesmo modo Macunaíma perde a chance de se casar com uma das filhas de Vei, a Sol, devido à sua inconstância (falta) de caráter: prefere brincar com uma portuguesa (européia). E é esta última falha que vai lhe selar o destino. Uma outra referência à Spengler aparece no comportamento de Macunaíma ao voltar de São Paulo para a mata que era o seu lar. Mas agora não há mais felicidade nesta volta à natureza: Macunaíma já foi contaminado pela convivência com a cidade. Segundo Spengler uma vez contaminado pela civilização, pela metrópole, o homem não poderá mais reencontrar o seu campo interior, mesmo que em outro local.
A ideia de Keyserling que era mais importante para o pensamento de Mário era a crença de que uma nova cultura poderia ser formada quando originada de uma raça resultada da miscigenação de raças que não fossem incompatíveis. E que uma cultura poderia permanecer sempre viva se ela fosse fiel à natureza de seu povo. É baseada nesta idéia que Mário acredita ser possível ao brasileiro ter uma cultura desde que ela se baseie no "ócio criador", mais adequado ao clima tropical. No enredo da obra podemos ver isto na possibilidade de união oferecida por Vei, a Sol: nela estaria a possibilidade de redenção da cultura brasileira.
[1] "Abandonei, traição consciente, a ficção, em favor de um homem-de-estudo que fundamentalmente não sou", in Andrade, Mário de. Aspectos da Literatura Brasileira
[2] A propósito da questão da adoção de uma língua escrita genuinamente brasileira, Mário escreve: "isso decerto ficará para outro futuro movimento modernista, amigo José de Alencar, meu irmão". In Andrade, Mário de. Aspectos da Literatura Brasileira
Bibliografia
ANDRADE, Mário de. Aspectos da Literatura Brasileira. Livraria Martins Editora. 5a. Edição, 1974.
BERRIEL, Carlos Eduardo Ourelas. Dimensões de Macunaíma: Filosofia, Gênero e Época. Tese. 1987.
BERRIEL, Carlos Eduardo Ourelas. Tietê, Tejo, Sena: A Obra de Paulo Prado. Tese. 1994.
BERRIEL, Carlos Eduardo Orneias: organizador. Mário de Andrade/Hoje. Cadernos Ensaio. Editora Ensaio. 1990.
CHASIN, José. O Integralismo de Plínio Salgado. 1978.
DURANT, Will. A História da Filosofia. Record. 2a. Edição. 1996.
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Record. 36a. Edição. 1999.
GARDINER, Patrick. Teorias da História. Lisboa, Fundação Calouste Gulbekian, 1984.

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