O livro Prisioneiras" de Drauzio Varella fala do cotidiano de uma prisão feminina e conclui a trilogia do autor sobre o ambiente carcerário brasileiro, presente nos livros "Estação Carandiru" e "Carcereiros".
O livro tem muitos pontos de interesse. Dentro deles gostaria de destacar um pelo seu inusitado, o efeito positivo que a facção criminosa do PCC (Partido do Comando da Capital) teve dentro das prisões brasileiras.
Em "Estação Carandiru", Drauzio relatava sua preocupação com o flagelo que o crack em poucos anos trouxe para a população carcerária, atingindo rapidamente cerca de 60% dos detentos:
"O crack invadiu a cadeia em meados de 1992, sorrateiramente. Uma tarde, no campo de futebol do Oito, vinha um rapaz completamente chapado. Falava em tom intimidatório e gesticulava para uma figura imaginária na janela de um xadrez do segundo andar. Na porta do pavilhão, um funcionário corpulento e precocemente hipertenso fez o diagnóstico e uma previsão amarga:
- Olha aí, doutor, é o crack chegando na Detenção. Só faltava mais essa.
Fiquei surpreso. Na minha ingenuidade, crack era coisa de filme americano, problema do Bronx, em Nova York, jamais no Carandiru."
"O crack entrou e varreu a cocaína injetável do mapa. É droga compulsiva, não sobra para o dia seguinte. Na crise de abstinência, se o dependente vê o pó, a pedra de crack ou alguém sob o efeito dela, passa mal: tem sudorese, taquicardia, cólicas abdominais, diarreia e vômitos."
"O crack abalou a estrutura do poder interno, a moral da malandragem e gerou mais violência. Na compulsão, o dependente gasta o que não pode; depois, chantageia os familiares dizendo-se ameaçado de morte. Quando a família é exaurida, vende os pertences pessoais e, nada mais tendo de valor, rouba, apanha na cara, toma facada, assume a responsabilidade de crime cometido por outros e até mata sob encomenda, em troca de uma pedra para fumar.
O vício está associado à derrocada financeira do usuário. Uma das técnicas que uso para identificar os que não usam crack é olhar o pé deles: se o tênis é novo, certeza, não é craqueiro."
O massacre do Carandiru levou à criação do PCC. Para se impor nas prisões, o PCC precisou antes atuar para tornar menos caótico o ambiente carcerário, para que os presos pudessem pensar em outra coisa que não apenas na própria sobrevivência e no vício do crack. Para isso proibiu nas prisões o consumo de crack (mas permite a maconha e a cocaína, menos destrutivos), os estupros e a confecção de armas (estiletes, facas), evitando os constantes assassinatos entre presos.
Drauzio chega a dar um passo além para concluir que até a queda nas estatísticas de assassinatos no Estado de São Paulo (de 60 para 8,7 para cada 100 mil habitantes, em menos de 10 anos) possa estar associada à atuação do PCC nas comunidades sob seu domínio. Estaria errado? Na mesma semana em que li seu livro, duas notícias me chamaram a atenção: uma reportagem sobre a cidade de Eusébio e o assassinato de agentes penitenciários a mando do PCC.
Veja aqui uma seleção dos trechos que comentamos do livro de Drauzio.
Veja aqui o Roda Viva de Drauzio na época do lançamento do livro e da polêmica do combate à Cracolândia.
Veja aqui uma seleção dos trechos que comentamos do livro de Drauzio.
Veja aqui o Roda Viva de Drauzio na época do lançamento do livro e da polêmica do combate à Cracolândia.

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